quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Areia

Eu podia sentir a terra molhada envolvendo os meus  pés mais do que qualquer dor de cabeça. Estava caminhando na única direção que havia para caminhar, lá não existia o  livre arbítrio e nenhuma outra estrada para seguir. Não sentia o cansaço, a fome ou qualquer dor muscular, somente a minha cabeça pesava mais e mais. As cores vibrantes invadiam meus olhos, o vento me arrepiava, e eu tremia de calor no frio. Aquele meio sol, que meio esquentava, no meio da noite, porque nunca amanhecia só me intrigava. Eu só caminhava e caminhava em direção a não-sei-o-quê. Só sei que não podia parar de caminhar, afinal, se eu parasse nunca iria chegar,  só aí eu descobri o quanto medo eu tinha de ter de caminhar sozinha, e  descobri também que quando se sabe o que virá pela frente as coisas se tornam muito mais fáceis. Projetei alguém para seguir comigo. Sempre fui tão egoísta e sempre gostei tanto de mim que ME projetei para seguir comigo. O que a tranquilizava e o que a irritava eram exatamente os mesmos motivos que me faziam ser quem sou, me irritar ou tranquilizar, dentre estes há outros sentimentos que nos assemelhavam cada  vez mais, entre um olhar e outro nos sentíamos cada vez mais parecidas. Me sentia absurdamente a vontade na presença dela, da minha projeção. Seguiu comigo milhas sem falar uma só palavra, me protegendo, apagando qualquer medo de dentro de mim, tirando os obstáculos do caminho, me amando como se eu fosse a única pessoa que seguia aquela estrada, e era. Só não entendia o fato de que se aquela presença não estivesse comigo eu automaticamente não existia, ou melhor, existia, porém só caminhava, numa estrada onde a única paisagem que eu conseguia ver era o arco-íris que se mostrava em preto e branco. O menos estranho de todo o caminho percorrido era que, o arco-íris exibido o tempo todo só ganhou cor quando a a progeção me tocou, aí soube que não era progeção, que não era da minha cabeça, não era uma fantasia e não era eu, aparecia e sumia todas as noites. Não se parecia fisicamente comigo, isso eu tinha de admitir, mas com certeza era coisa mais linda que eu já havia visto em toda a minha vida, o que era estranho porque na verdade eu nunca havia visto ninguém, além do meu reflexo naquelas poças de água que além de me refletirem lavavam meus pés, excerto quando estavam sujos de areia, eu gostava quando eles estavam com areia, evitava pisar em qualquer coisa que removeria os grãos dali. Se não era eu, nem uma progeção da minha cabeça quem mais seria ?  Eu evitava pensar nisso durante a nossa caminhada, na verdade eu não precisava saber quem era, nem de onde viera, só precisava daquela presença. Nós não dormíamos, não comíamos, não conversamos, os meus olhos focaram-se  naquela imagem raramente, mas a lembrança de sua face era intacta dentro da minha cabeça. Eu tinha certeza de que aquela presença não iria embora para sempre, não conseguiria seguir sem mim, nem eu sem ela. Eu já era a dona dela, e ela a minha.
 Num dia qualquer, estava chovendo e não sei em que ano foi, mas acho que estávamos próximos do século XX, aquilo que me protegia resolveu então falar comigo:
___ Eu sonho com você todas as noites.
Aquela era a voz que os meus ouvidos sempre quiseram ouvir, eu nunca havia escutado outra voz que não fosse a minha conversando com algumas plantas, animais ou comigo mesma, qualquer outra coisa que eu imaginasse que pudesse me ouvir, e sem contar com as mil e uma vozes que eu ouvia diariamente mas a origem delas era a minha cabeça meio perturbada e disso eu sabia. Era voz de homem, crescido. Na minha cabeça a voz de um homem de verdade era aquela.
Me dei conta de que não conseguiria responde-lo, a surpresa foi grande.
___ Eu não sei porque você  aparece nos meus sonhos, sempre nesta mesma estrada, com essa mesma música, com o mesmo cheiro, com esse mesmo olhar de quem confia, só te peço pra nunca mais desaparecer, pois enquanto não durmo e sonho com você tenho pesadelos.
Eu, assustada, feliz, desconfiada e confiante respondi:
___  Eu não sabia que sonhava comigo, que dormia, que tinha pesadelos, que falava. Desculpa mas eu não sei se tenho a escolha de aparecer ou não nos teus sonhos.
Ele começou a chorar desesperadamente e aliviado na minha frente, como se sentisse que alguém tiraria sua vida naquele instante, por nada. Eu não sabia o que fazer além de continuar caminhando ao lado dele, contando com sua presença todos os dias.
Abriu um sorriso dentre as lágrimas e disse:
___ Venho cuidando de você há anos, veja só como cresceu!
Nada daquilo fazia  sentido pra mim, eu sempre tive o mesmo tamanho, a mesma idade, o mesmo peso e cor dos olhos, que eu me lembre. Perguntei à ele de onde vinha, não que isso fizesse muita diferença, mas daquele momento em diante me interessei por sua existência.
___ De onde uma estrada é pouco demais, quase um nada.
Não quis saber mais nada.
Ele me tomou pela mão, o arco-íris imediatamente exibiu suas cores esplêndidas, ainda mais bonitas do que sempre foram. Eu senti pela primeira vez em toda a existência dele na minha estrada que ele realmente estava com medo, talvez ele não quisesse voltar de onde viera, acho que era isso. Ele sumiu mais uma vez, e como era de costume todas as vezes em que ele sumia, eu continuava a caminhar, desta vez com medo outra vez, tinha me esquecido como era sentir medo.  Conversei com algumas árvores e continuei andando, a qualquer hora ele retornaria, e assim aconteceu.
___ Decidi ir embora.
Ele me disse com uma serenidade quase irritante, e com um olhar tão decidido que me intimidou.
___ Achei que nunca fosse me deixar, são tantos anos, vimos tantas coisas nessa estrada, me protegeu, me aqueceu, cuidou, cativou...
Falei, com a intenção de que ele mudasse de ideia e viesse me ver todos os dias, como nos últimos aproximadamente 50 anos. Falei firmemente, mas por dentro eu não passava de um poço de medo e um mar de inconformidade.
___ Decidi ir embora de onde eu vim, decidi dormir para sempre.
Eu já estava confusa demais para entender qualquer sílaba que saia daquela boca, com um formato gostoso, mas sabia que ele não iria mais embora por alguns minutos, horas ou dias, sabia que ele estaria para sempre  ali. Aliviada com a situação permiti que ele morasse dentro de mim,  e assim que ele desapareceu diante dos meus olhos eu o senti para sempre, de onde nada o tiraria, e ali ele ficou. Nunca mais o vi, mas sinto sua presença dentro de mim  cada vez mais forte, o tempo inteiro, para sempre e me guiando até o fim da estrada, se é que a estrada existe.

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