O dia não era o mais bonito do ano, nem perto disso, era nublado e no céu havia algumas nuvens que pareciam engolir cada vez mais a cidade. Nem o tempo, nem a rapidez com que os dias passavam me preocupava, sem ser notada por ninguém eu continuava ali sentada naquele muro quase terminado esperando a chuva vir pra que eu pudesse chegar em casa molhada e ter a desculpa para dar à minha mãe de que eu não poderia sentar à mesa para jantar, aquilo para mim era absolutamente dispensável, sempre os mesmo assuntos, sempre falando da vida dos outros, sempre criticando alguma coisa, alguém. Na espera, de repente a chuva vem fraca, depois toma força e eu atentamente tentando acompanhar cada pinguinho dela que batia com força no chão e mandava respingos pro alto. Enquanto minha dor de cabeça me atrapalhava de fixar os olhos nas gotas, descobri um som diferente, um som de dor misturado com angústia, o que me era muito familiar. Olhei pro lado e vi uma menina, não era bonita nem feia, nem magra nem gorda, nem alta nem baixa, mas era uma menina cujo a tristeza transparecia cada vez mais nítida. Ela nem se quer tentou disfarçar seu choro, que parecia ter segurado séculos e finalmente ter conseguido por tudo aquilo pra fora. Não que chorar fosse resolver alguma coisa, disso eu e ela sabíamos. Resolvi perguntar a ela se tinha acontecido alguma coisa, ou se eu podia ajudar de alguma forma, o que não acontece todos os dias, nem o meu interesse em ajudar alguém, nem alguém estar disposto o suficiente para ajudar você quando mais precisa, enfim, ela se virou pra mim, com o rosto todo borrado de maquiagem, e me perguntou porque as pessoas tem a mania de esperar tanto das outras pessoas. Eu não sabia bem ao certo se eu podia ou não responder a verdade a ela, então resolvi me calar. Respirei fundo tentando achar uma resposta menos cruel para aquela pergunta que também me intrigava quase sempre, mas que eu num dia qualquer tinha descoberto o motivo. Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, ela me pegou pela mão, me levou pra parte do muro que já estava terminada, onde não chovia graças a um toldo verde e velho de uma loja de discos. Quando chegamos lá, eu me sentei, ela se sentou ao meu lado, ainda em prantos, pegou um cigarro em sua bolsa bordada e me ofereceu um, eu aceitei, acendemos e ficamos ali por alguns minutos sem trocar uma só palavra, observando a chuva que caía cada vez mais forte. Do outro lado da rua no final de uma avenida um ônibus aparecia, todo iluminado. Ela se levantou e olhou pra mim, jogou seu cigarro no chão, me disse que tinha que ir embora, e foi.
Eu tinha certeza que nunca mais a veria na minha vida, e que eu nunca poderia dizer à ela, o por que é que as pessoas esperam tanto uma das outras. Torço para que ela saiba um dia, que as pessoas não são metade do que deveriam ser para esperarem algo das outras pessoas, que também não são dignas o suficiente para que alguém espere algo delas.
Mais que o esperado, menos que justo.
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